domingo, 15 de março de 2009
À glória do fracasso.
Ao assumir, humilde e claramente, a responsabilidade que tivemos sobre algo dar errado ou ser capenga, automaticamente aceitamos as críticas e isso de certa forma é bom para nós, que podemos crescer se soubermos filtrá-las e bom para os outros que se sentem contentados com a razão que lhe damos.
A responsabilidade (prefiro evitar a palavra culpa) é nossa e isso mostra que temos a liberdade de decidir. Algo tão raro em nossos dias, poder decidir, tantos as mínimas quanto às máximas escolhas, e fracassar nos faz mais conscientes do quanto somos responsáveis pelas conseqüências de nossos atos. E nas pessoas de verdade, com certeza haverá uma maior preocupação em como lidar com a sua própria realidade.
E é bom, algumas vezes, acordar lembrando de nossas misérias, afinal humildade é definida como “o reconhecimento de suas próprias fraquezas”. É importante lembrar do quanto somos só carbono neste imenso universo e como as nossas insignificantes vidas passarão como um pequeno instante na sua história, ou seja, já nascemos para o fracasso, só cabe a nós sabermos o quanto vale a pena arriscar e por quê.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
RELATÓRIO DO PROJETO No 28 333 321-2
As atividades seguem normalmente: trampo, balada, amor e embriaguês. Não necessariamente nesta ordem, mas muitas vezes misturados. A conciliação entre esses elementos está gerando dificuldades e as tentativas até agora sugerem que a solução seja eliminar um destes elementos. A coordenação sugere que seja o trampo, porém o responsável do setor administrativo vetou esta possibilidade. Estuda-se, então, que o amor seja o elemento eliminado.
Dentre as várias atividades, é importante ressaltar o ócio e o sedentarismo, combinado com uma alimentação rica em queijos derretidos e suco de cevada. O sono tem sido muito em umas noites e pouco em outras, sempre pesado e acompanhado também do peso da cabeça que, em alguns dias, tem se tornado tão grande que fica difícil sustentá-la, principalmente na atividade balada. Quando isto acontece, o coordenador Bode assume e a balada termina. Bode e os outros coordenadores afirmam haver relação entre o sedentarismo e ócio, ele expõe esta opinião todos os dias durante a balada.
Em relação ao amor fica colocada a questão da necessidade, a coordenação afirma ser imprescindível, mas o setor administrativo coloca que, além de causar um ônus enorme ao projeto, o amor ocupa muito tempo de nossos esforços. Apesar de concordar que os lucros são bons, acusa que a falta de regularidade compromete o andamento de todos os setores. A coordenação se mostrou irredutível até o momento.
A embriagues tem sido umas das atividades na qual a coordenação está mais empenhada. Embora o custo, às vezes, mostre-se alto, enquanto os gastos mantiverem-se dentro do cronograma previsto, não haverá redução, principalmente devido à relação intrínseca entre a embriagues e a balada. A redução das duas atividades só será estudada pela coordenação, se houver danos significativos às outras.
Quanto à possibilidade de acrescentar outras atividades ao projeto tais como arte, caridade e esportes, a coordenação, até agora, tem mostrado-se resistente.
Sem mais para o momento.
segunda-feira, 9 de junho de 2008
O mundo possível
Justino sabia bem do que se tratava. Era fácil perceber: as pessoas saindo de casa por volta da oito da manhã, arrumadas, com a reconhecível pastinha na mão e a esperança nos olhos. Ele sabia que para resolver o problema era necessário ir ao fundo dele, revolver e trazer a tona o que estava em seu âmago, era preciso ir ao centro do problema: Estação República, o centro da cidade que recolhe, mas não acolhe. Não gostava de ser chamado de peão, mas também não entendia o porquê do nome construção civil. Existiriam outros tipos de construções? Os viadutos e prédios públicos que ele construíra eram civis? E o barraco onde morava? Aquilo também era construção civil. Naquele momento, na fila, isso não importava. A carteira de trabalho no bolso e a apreensão no olhar – via que tinha gente de todo o tipo na fila: uma senhora que parecia sua mulher, uma garota que lembrava sua filha e embora os tipos fossem diferentes havia algo que aproximava aquelas pessoas e que não era a pastinha debaixo do braço. Depois de largas horas, seu estômago roncando e a atendente preenchendo seus dados. Nenhuma vaga no momento. Era preciso aguardar. Sua expressão era de fadiga, a fome agora se misturava à frustração. Saiu e foi andar na Barão. Quem sabe alguém não trocava um currículo seu por um cachorro-quente e um suco. Já que o currículo era a sua única riqueza, pois ele representava toda a tentativa de Justino de tentar construir a sua vida na cidade grande, mas como não há vagas, agora não deixam ele construir mais nada.
domingo, 6 de abril de 2008
A Barbie e o Quem.
- Sabia que você é muito gostosa?
A mulher o olha reconhecendo e diz sorridente, pondo a mão na cintura:
-Obrigada. E olha que eu sou assim, nem faço nada!
– Sério!
– É. Tirando duas horas de esteira, uma de spinning, musculação e retroclass todo o dia. A drenagem línfatica, o botox e os cremes contra celulite, rugas e envelhecimento precoce, nada!
-Deus sabe fazer uma grande obra e jogou o molde fora. Mas, eu te conheço de algum lugar.
-Sabe aquele comercial que um menino cai no meio de um monte de Barbie. Eu sou uma delas.- a mulher fala, enquanto passa a mão no cabelo e sorri.
- Sabia que já tinha visto essas belas pernas em algum lugar – ele responde passando os dedos na coxa dela.
-Que bom que você lembra de mim! - Ela diz, mostrando os dentes num sorriso forçado que ele nem vê, pois está olhando para baixo enquanto chega perto da orelha dela:
- Impossível te esquecer, você é um tesão - E aperta as coxas dela, ela tenta sorrir de novo e esfrega os peitos nele que olha:
-Acho que eu vou te pagar uns peitos...
Ela passa a mão preocupada nos próprios peitos e fala esperançosa:-Você jura?
-Claro! Você bebe alguma coisa?
-260 mililitros! Ops, quer dizer...huum, uma cerveja tem 300 calorias... A, eu quero um gin tônica.
-Então, você gostou de mim? – a mulher fala sensualmente
-Claro, vamos para o meu apartamento. - Ele responde um pouco indiferente, bebendo, tirando uma nota alta da carteira e a dando ao garçom.
-Então eu vou poder posar na sua revista! - Ela pula numa alegria infantil, desta vez realmente entusiasmada.
Ele se levanta e se dirige à porta na frente dela:
-Quem sabe depois dessa noite e dos peitos...
segunda-feira, 3 de março de 2008
As mulheres rompendo barreiras
Minha mãe não quis ser super protetora. Daquelas mães que dão para cobrar, que cuidam e controlam. Ela quis ser diferente da mãe dela, quis deixar correr solto, criar os filhos para o mundo e acabou deixando de lado uma proximidade que só o amor expressado através do carinho pode significar. Ela quis ir tão contra um modelo que, além de lhe ter feito muito mal, ela julgava ultrapassado.
Eu fico pensando nessas conquistas todas da mulher que são alardeadas pelas “revistas femininas,” mas não posso esquecer que essas conquistas, além de não terem sidos muitas, também são muito recentes se pensarmos na história da humanidade. Aconteceu justamente na geração da minha mãe, a revolução feminina, a pílula, os valores despedaçados. Mas valores que, apesar de disfarçados pela dita mentalidade aberta, continuam muitos arraigados e muito machistas. Os valores tradicionais que as mulheres carregavam foram desfeitos: nenhuma mulher mais se prepara a vida inteira para servir ao marido, a casa e aos filhos – será? Foi permitido às mulheres estudar, trabalhar e é claro se afastar da famigerada dupla fogão e tanque, elas não precisam mais saber cuidar de uma casa, elas agora estão no mercado de trabalho. E aí eu pergunto se esse afastamento do digamos “lar doméstico” é saudável mesmo? Será que elas ao quererem (ou precisarem ) se apresentar de unhas feitas e dentes brancos ao mercado não as afastou demais de valores que são muito importantes na história da humanidade como a relação mãe e filho? Será que elas cometeram o mesmo equívoco da minha mãe que ao se afastar de um modelo, exagerou do outro lado?
Não defendo que todas as mulheres devem ter forno e fogão como matéria nas escolas, nem que minha mãe não tenha cumprido seu papel de educar-me e me transmitir tudo de importante que ela considerava, mas todos nós – homens e mulheres – deveríamos saber – ao menos ter noção – de como deixar a casa limpa e arrumada e fazer uma comidinha deliciosa para receber quem você ama. Simples demonstrações de afeto que não são valores femininos ou masculinos, mas que foram e vão continuar sendo valores humanos.
quinta-feira, 11 de outubro de 2007
FÁBULA VEGETARIANA*
segunda-feira, 24 de setembro de 2007
Volta, Rosicleide, volta...
Volta, Rosicleide, a vida é muito feia sem você.
MOTIVO
-Seus putos, vocês sabem que não podem jogar bola aqui. Se cair de novo, rasgo de novo.
Conforme o prometido, teimosa. Fica lá o dia inteiro cuidando das plantas e dos passarinhos, por isso é amarga desse jeito, não faz nada da vida. Custava devolver a bola, planta cresce de novo, passarinho depois fica quieto. Daqui a pouco ninguém mais vai ter bola na rua.
-Pé torto, não presta atenção, não. Lá se vai mais uma bola. Duvido que a velha não teja lá...
-Quem pula?
-Quem chutô, né, lógico. Corre. – Pulou, primeiro veio a bola, depois ele, rapidinho.
-Ela tem muita planta mesmo, e vários passarinhos, inclusive uma arara.
-Uma arara, sério? Ter arara num é crime ?
Depois de uns dias, estava um carro do IBAMA na frente da casa da velha. Os caras do carro do governo levaram vários passarinhos da velha, bem feito!
A bola só foi cair no quintal da velha de novo depois de várias semanas. Ela não saia mais gritando, nem devolvia bola rasgada. O Julio, que pulou lá pra pegar a bola dessa vez, voltou branco. Sem a bola.
-A velha tá estirada no quintal. Dura, meio verde já. Esse cheiro num é só do córrego não...
Dessa vez o carro na frente da casa da velha era do IML. A velha já tinha morrido fazia uma semana. Ninguém tinha percebido. As plantas já estavam murchas e os passarinhos que restaram muito fracos.
Um dia, depois de algum tempo, quando já não havia mais pássaros, nem plantas, a bola caiu no quintal da velha de novo. E novamente foi devolvida rasgada.
Ninguém nunca mais jogou bola lá.
quarta-feira, 29 de agosto de 2007
Soneto da (des)educação
Dos meus anos de estudo
É dever da sociedade
Não sou mais um vagabundo
Liberalista educado
Sem análise, só crítica
Me ponho de um dos lados
E a mídia me legitima
Sou formado para o mercado
Entendi a mais-valia
Fui feito para o trabalho
A escola me informou bem
Agora sou um cidadão
E não devo contas a ninguém
15.8.06
terça-feira, 26 de junho de 2007
Livros são livres
Eu não sou livro, nem livre de definições
Livres aqueles que não acreditam nos livros,
nem em definições
Afinal livros são livros:
Litros de palavras que formam as frases
Frases que informam as pessoas
Pessoas que transformam seu tempo
Pessoas são livres, assim como os livros
Para entenderem o que quiserem disso
Porque livros, mesmo livres, são apenas livros.
B.
Direitos humanos para os humanos direitos
quinta-feira, 24 de maio de 2007
A um grande amigo...
Te escrevo para te dizer que há muito não escrevo, não encontrava inspiração. Talvez estivesse procurando um motivo que jamais encontraria. O mundo onde vivemos nos desencoraja.
Para entender de realidade é preciso que se viva, por isso, amigo, vivas a você! Essa carta espera poder confortá-lo e confrontá-lo com o absurdo do amor, digo absurdo pois o próprio amor é absurdo, assim como qualquer atitude que prove a existência de tal sentimento, por isso a carta... O amor já não existe em conversas corriqueiras.
Essa carta irá encontrá-lo com saúde, levando saudades e levantando questões metafísicas de tempo e espaço, pretendo te escrever simplesmente por te escrever, não tenho muito a dizer só quero te lembrar que vale a pena resistir e insistir em ser feliz.
Gostaria de compartilhar contigo, amigo, a minha falta de esperança nesses dias que virão, fica escrito aqui a mais completa desilusão com os nossos contemporâneos, porém espero que a chama da criação continue acesa para nós, sãos.
Também gostaria de compartilhar, amigo, toda a frivolidade inevitável que vivemos, nos dias consumidos de luminosa solidão continuamos a observar o nosso bizarro mundo; Que sua busca continue constante e firme!
Enfim, meu grande amigo, essa carta vai levando um pouco de mim, para te ofertar reflexões sobre o saber-se amar, sobre como as coisas fúteis têm tanto lugar e o absurdo fica para os poucos/loucos como nós.
Reconfortantes abraços e sinceras bobagens a todos os meus amigos
(inclusive aos que eu ainda não conheço)
quinta-feira, 3 de maio de 2007
Cocozinho era expansiva embora reservada. Era muito espirituosa e queria que todos a admirassem. Gostava de conversar, mas só com gente da sua classe.
O ruim era quando estava fresca, aí a cocozinho se mostrava bem. Se esparramava por toda a parte, de acordo com a sua vontade, e com todo aquele enjôo, era triste. Não queria mais se mover do lugar e virava um terrível cocozinho mole. Não chegava a ser insuportável porque além de todo mundo gostar da cocozinho, mais por costume que por prazer, ela era necessária. Durinha, com tudo em cima, suas formas e seu perfume já eram conhecidos e todos de algum modo faziam questão de tê-la por perto.
Não era boa de papo, mas também como conversar com cocô? Serve para várias coisas, mas não dá para se divertir muito. Mostrar, exibir, mas não tentar um contato maior - isso era impossível para a cocozinho.
Cocozinho, às vezes, saia e ficava só, num canto. Pensando? Não, que cocô não pensa. Continuava querendo chamar a atenção, mas ficava isolada – não para refletir - mas para não se misturar ao resto daquela merda toda.
terça-feira, 24 de abril de 2007
sub - MISSÃO
e não que eu pense que vou ficar com você a vida toda.
Mas mesmo assim, quero que você fique bem.
Bem agora e sempre.
Mas essa barriga...
Tudo bem, ela ainda não atrapalha eu fazer boquete.
Mas você sabe, querido, todos esses anos juntos, percebi que ela vem crescendo e pior,
você nem gosta mais que eu morda ela.
Ainda mais que você fica fumando um maço todo dia,
era legal fazer alguma coisa a respeito disso.
A gente tem que lembrar: a idade vem chegando, a pele caindo, as taxas de colesterol subindo, mas, a vida segue e você sabe que eu vou continuar te amando.
Fazer o quê?
Então tá bem, amor, pode deixar que eu vou fazer o curso de primeiros-socorros por você... mas, não pára não, continua me beijando.
quinta-feira, 12 de abril de 2007
O seqüestrador lembrava do carro no outdoor. No comercial, na televisão do barraco, lá estava o carro. Merda de vida!
O publicitário estava muito feliz. Sua campanha foi um sucesso. Maravilhas da mídia de massa.
Sangue nos olhos! Ia fazer mais uma fita. O carro, o último modelo, seria dele. Ia andar igual na propaganda.
O publicitário sente o cano frio na sua cabeça genial. Pára de pensar. Recebe uma coronhada. Tudo escurece.
O seqüestrador voltava de um encontro com uma dona quando viu, parado no farol, com o mesmo glamour, o carro dos seus sonhos de consumo, só faltava uma coisa: ele dirigindo.
A campanha do carro fez tanto sucesso que o publicitário ganhou um mega desconto na concessionária e acabou saindo com o mesmo carro que a sua inteligência estava ajudando a vender.
Lá estava ele, desfilando no seu carro novo com o publicitário desacordado ao seu lado. Motor potente. Porta-mala espaçoso. Lugar deserto. O seqüestrador achou melhor guardar o publicitário bem trancado.
Embriagado pelo sucesso, o seqüestrador sai para passear com o publicitário e seu carro novo. Mexe com as mulheres na rua e quase consegue um encontro com outra dona. Passeia pelos lugares mais chiques de São Paulo, até que vê uma viatura. Faz cara de sério, mas os policiais pedem para ele parar.
O publicitário abre os olhos, só vê escuro. Falta o ar, seu corpo dói, sente medo. Ouve tiros lá fora. Vai morrer. Tão jovem e talentoso.
Quando o seqüestrador ia se encostar na parte de trás do carro, talvez para ser revistado, talvez para sacar seu revólver, um movimento brusco assusta os policiais que atiram várias vezes em sua direção.
O publicitário entoava um mantra quando uma das balas atravessa a lataria do carro e o acerta em cheio.
O carro era roubado, o seqüestrador procurado. Saiu uma grande matéria no jornal sobre o premiado publicitário morto em ação policial: “Morreu como um herói, mas não aproveitou sua conquista”.
terça-feira, 3 de abril de 2007
e nessa loucura quente
sua língua é o fósforo
que esfrega na minha caixinha.
Nesse calor eu me encaixo
No forno embaixo do seu umbigo
Sou eu, sorvete derretendo
Em cima do seu palito
E nos nossos lençóis labaredas,
as faíscas molhadas se espalham
como líquidas serpentes
sobre nossos corpos suados.
2003
quinta-feira, 29 de março de 2007
Reflexões sobre o trabalho
Esse alguém , com certeza, pensou nisso num domingo ensolarado, quando, deixando os papéis de lado, foi passear e aproveitar toda a nobreza que o trabalho dá.
Enquanto outro, menos folgado, trabalhava em seu lugar.
segunda-feira, 19 de março de 2007
poema quadradinho
Um novo lugar que não seja nenhum
Onde não haja separação ou distância
e tudo fique guardado aqui
Desenha pra mim outro tempo
Onde nada demore, nem haja espera
Em que as horas parem e só reste
O agora pra eu te olhar
Desenha pra mim outro mundo
Onde você não saía mais do meu quadrinho
E a falta de tinta seja o escurinho
Pra gente se amar em PB
segunda-feira, 12 de março de 2007
As intituições que eu respeito ou Sobre o prazer de rir e foder.
A piada e a putaria nos ajudam em vários campos de nossa vida e nos dão direitos que nenhum estado democrático jamais poderá fornecer: a liberdade para rir e foder, sem culpa, sem medo de represálias e sem vergonha, com orgulho e prazer.
Barbara
Domingoensolaradovinteenovedeoutubrodedoismileseis.
domingo, 25 de fevereiro de 2007
Os vizinhos descobriram
Por causa do mau cheiro
Que o amor já tinha morrido
Em meados de fevereiro
Assassinado barbaramente
Por causas desconhecidas
Tinha marcas de violência
E em volta, ilusões perdidas
Dizem que esse amor costumava
Ser tranquilo e simpático
Os vizinhos nunca notaram nada
Até o evento traumático
As investigações prosseguem
Sem nenhuma novidade
Os suspeitos são o ciúmes,
A rejeição e a saudade.
A perícia já concluiu
Que a morte se deu aos poucos
O amor antes de morrer
Foi acorrentado a alguns desgostos
Até fecharmos a redação
O amor não foi identificado
E se alguém souber de alguma coisa
Por favor, que fique calado.
B.
quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007
meu ideal de amor
Como se meu perdão resolvesse alguma coisa. Além disso, ela sabe, mesmo sem eu dizer, que eu faria qualquer coisa por ela. Sem clichê ou promessas - tudo. Era uma condição.
Estávamos lado a lado, sem culpa, sem medo e nem benção. Só não pensava exatamente nisso, mas não consigo ficar com raiva dela agora.
Aquele olhar doce, firme e agora cheio de medo, só me dava mais vontade de nunca mais olhar para nada. Mas eu tenho que olhar o trânsito, eu tenho que prestar atenção – carros, placas, buracos, curvas... Então ela faz o que não poderia fazer de jeito nenhum naquele momento: seus olhos se inundam de desespero e ela aperta meu braço, achando que ele é mais forte do que parece e as lágrimas começam a molhar minha blusa. Paro o carro e a abraço.
Era a única coisa que poderia fazer.
Ficamos alguns séculos abraçados até passar uma sirene na estrada que me chama para a realidade.
-Tudo vai ficar bem - digo, mesmo sem ter certeza.
Ela finge que acredita e, mais calma, pega um mapa no porta-luvas e localiza uma represa perto dali onde podemos jogar o corpo que está no porta-mala - como eu amo essa mulher!